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A importância do erro no processo de ensino aprendizagem

É bastante curioso que hoje fala-se muito sobre metodologias ativas, abordagens pedagógicas inovadoras e protagonismo do aluno. Esses termos viraram quase que um mantra quando visita-se qualquer instituição escolar para se matricular um novo aluno. Fala-se desses conceitos, muitas vezes, sem entender exatamente o que elas significam. Também temos muitos interlocutores educacionais trazendo as competências do século XXI como fundamentos das novas escolas que prometem desenvolver para o mundo um indivíduo capaz de lidar com todos os dilemas do presente e de nosso mundo globalizado.

Estamos prontos para transformar o discurso em prática?
A grande pergunta que fica para a maioria de nós como desafio a responder é “até que ponto todos esses aspectos de práticas educacionais modernas são efetivamente aplicadas no dia a dia das escolas?” Será que aquilo que colocamos em nossos materiais de marketing e folhetos que explicam as propostas pedagógicas das nossas escolas são parte efetiva da vida instrucional dos alunos? Parece que as instituições educacionais estão no divã, tentando construir um novo formato de atuar com seus alunos, mas ainda atormentadas pelas sombras e pesadelos de um tempo que deveria ficar no passado. É neste diapasão que queremos discutir aqui o grande dilema do papel do erro e dos erros no processo de ensino-aprendizagem. Sem essa discussão parece ser difícil mudar de paradigma educacional: dos modelos tradicionais centrados no estilo de educação industrial para as mudanças de paradigmas voltados para as tais “metodologias ativas” onde impera o “protagonismo do aluno”. Afinal de contas, no escopo dos paradigmas de ensino tradicionais, o erro é algo que deveria ser evitado, repelido e, muitas vezes, eliminado.

Prova disso é a “boa e velha” caneta vermelha que o professor usa para marcar “certo” ou “errado” nas atividades dos alunos. No cadernos de atividades, o aluno brilhante terá inúmeros “certinhos” e o menor número possível de X, marca do erro e da reprovação. O fracasso escolar é totalmente associado ao número de erros que temos em uma prova, em uma atividade, ou na somatória de atividades ao longo de um período escolar. O processo de aprovação escolar, que permitirá a progressão de ano, é totalmente baseado na dicotomia entre “certo” e “errado”.

O fato mais conturbado desta temática é que esses marcadores “certo” e “errado” são totalitários, pois, na maioria dos casos, ele só considera o resultado final de todo um processo cognitivo complexo. Vejamos o exemplo de uma atividade de matemática. Essa atividade vale 2 pontos em uma avaliação. Um aluno nem sabia por onde começar, nem pensa direito a respeito do problema. Ele coloca qualquer resultado possível, quando a resposta “certa” seria -23. Outro aluno tem todos os componentes necessários para a resolução do mesmo problema matemático, ele raciocina e trabalha em um desenvolvimento lógico-matemático. No final do problema, esse aluno se confunde com o sinal negativo. Ao invés de marcar -23, ele coloca apenas 23. Qual é o resultado para todo seu trabalho? O resultado é o mesmo “errado” do aluno que nem tentou pensar a respeito do problema. Esse é um exemplo típico de como essa divisão certo/errado é bastante controversa.

Além disso, o peso negativo atribuído ao erro em nossos contextos educacionais elimina o papel importantíssimo do erro no processo de ensino/aprendizagem de qualquer ser humano. Thomas Edison errou mais de 700 vezes no processo de invenção da lâmpada. Einstein cometeu erros importantes em sua trajetória científica, como a negação da existência do buraco negro e quando disse que acreditava que o Universo fosse uma manifestação inerte e estática. Nem por causa de seus erros, Einstein perdeu seus méritos em todos os aspectos positivos de contribuição para a Física e a Ciência Moderna como um todo. Igualmente, Edison também acabou inventando a lâmpada: uma das maiores invenções de todos os tempos.

Errar é humano, mas parece ser punido dentro dos ambientes escolares. O aluno brilhante não é aquele que se arrisca em tentativas de construção de conhecimento, mas sim aquele que não comete erros nas atividades propostas. Os sistemas de avaliação não privilegiam as tentativas, os processos e os erros: apenas os produtos finais. Uma aula pautada por metodologias ativas precisa ter o erro como elemento fundamental no processo de ensino-aprendizagem. Quanto menos medo o aluno tiver de errar, melhor será a sua capacidade de experimentar o novo, de fazer tentativas e de procurar saídas alternativas para problemas da vida educacional.
Se a escola quer tornar o aluno protagonista dos processos de ensino-aprendizagem, ela terá que privilegiar as oportunidades de experimentar, de tentar e errar, de refletir sobre seus erros para construir novas soluções e caminhos para os problemas postos aos estudantes. Indo mais a fundo nisso, se uma instituição quiser implantar práticas voltadas para tecnologias educacionais, uma abordagem baseada em projetos ou práticas reflexivas, nada disso será possível sem que os alunos vivenciem o erro e o encarem como ferramenta fundamental para a aprendizagem.
4 Pilares da Educação do Século XXI – Unesco.

Em 1999, a Unesco publicou um documento que representa sua visão para a base da Educação do Século XXI. Nesse documento, 4 pilares fundamentais surgem como arcabouço deste novo formato educacional. Resumidamente, eles são descritos conforme segue:

• Aprender a conhecer, combinando uma cultura geral, suficientemente ampla, com a possibilidade de estudar, em profundidade, um número reduzido de assuntos, ou seja: aprender a aprender, para beneficiar­-se das oportunidades oferecidas pela educação ao longo da vida.

• Aprender a fazer, a fim de adquirir não só uma qualificação profissional, mas, de uma maneira mais abrangente, a competência que torna a pessoa apta a enfrentar numerosas situações e a trabalhar em equipe. Além disso, aprender a fazer no âmbito das diversas experiências sociais ou de trabalho, oferecidas aos jovens e adolescentes, seja espontaneamente na sequência do contexto local ou nacional, seja formalmente, graças ao desenvolvimento do ensino alternado com o trabalho.

• Aprender a conviver, desenvolvendo a compreensão do outro e a percepção das interdependências – realizar projetos comuns e preparar-­se para gerenciar conflitos – no respeito pelos valores do pluralismo, da compreensão mútua e da paz.

• Aprender a ser, para desenvolver, o melhor possível, a personalidade e estar em condições de agir com uma capacidade cada vez maior de autonomia, discernimento e responsabilidade pessoal. Com essa finalidade, a educação deve levar em consideração todas as potencialidades de cada indivíduo: memória, raciocínio, sentido estético, capacidades físicas, aptidão para comunicar-­se.” (Delors, 1999).

É importante pontuar o quanto o erro apresenta-se como elemento fundamental no desenvolvimento desses 4 pilares. Não há como aprender a aprender sem se arriscar e fazer tentativas equivocadas no levantamento de possibilidades de possíveis evidências. Só aprendemos a fazer se, nos primeiros momentos, nos permitirmos fazer coisas com pouca maestria ou precisão. Afinal, não é assim que aprendemos a dirigir, a fazer um bolo, ou a fazer qualquer artesanato? Nos relacionamentos sociais, também só aprendemos sobre como devemos nos portar e como nos relacionar com os demais ao cometer “gafes” e deslizes. A infância e a adolescência são períodos cheios de erros e imperfeições que nos ajudam a aprender

Há uma luz no fim do túnel
Os pessimistas podem achar que não há saída para esse dilema, considerando que o erro é punido nos contextos educacionais desde o século XVIII. Podemos nos sentir perdidos e sem rumo no que diz respeito a como implantar uma prática educacional investigativa, que dá espaço à experimentação e ao erro. Contudo, ouso dizer que há, sim, uma luz no fim do túnel. Veja que já há avanços neste sentido. Seguem alguns exemplos a serem pontuados:

1. Processos da alfabetização
No passado, havia uma prática bem tradicional e ultrapassada em que alfabetizávamos as crianças no formato “vovó viu a uva”. Hoje, há inúmeras escolas que permitem que o processo de letramento se dê em fases (pré-silábico, silábico, silábico alfabético e alfabético). Neste diapasão, o erro é totalmente respeitado e a criança tem todo o espaço necessário para experimentar as letras, as sílabas e as composições do processo de letramento para fins de suas necessidades de expressão e comunicação. Os pais precisam ser informados que o erro é muito importante nestas 4 fases e que cada criança evolui de uma fase para a outra em “tempos” diferentes.

2. Processos de aprendizagem de línguas adicionais
No escopo do ensino das línguas estrangeiras, sejam elas o inglês, o espanhol ou outra, que hoje chamamos de “língua adicional”, muito se evoluiu no papel do erro. É totalmente imperativo que os alunos se arrisquem a utilizar o idioma com o repertório que eles conseguiram construir até um dado momento. Especialmente, no que tange à habilidade da “oralidade”, é impossível pensar em trabalhos neste eixo em que o erro não seja permitido. Na verdade, ele é totalmente necessário para a evolução do aluno no uso e nas práticas de qualquer dada língua adicional.

3. Disciplinas voltadas para a cultura maker
Pode parecer modismo o surgimento da cultura maker como um dos caminhos para aprimoramento das práticas educacionais em qualquer escola, mas países como Noruega e Finlândia tem construído seus paradigmas educacionais a partir de modelos em que os alunos estão sempre envolvidos com projetos em que eles precisam “montar coisas” ou resolver problemas. Seja via disciplinas específicas para a cultura maker, ou por meio da utilização de instrumentos típicos dessas práticas durante as disciplinas tradicionais, o professor é obrigado a dar espaço para a experimentação e para o erro. Em alguns momentos, o foco é o produto final; em outros, o produto final é apenas um detalhe e o mais importante é o processo em si. Mais importante do que não errar é saber o que fazer diante do erro.

4. Abordagens digitais
O crescimento incontestável do uso de elementos digitais nos processos de ensino-aprendizagem também criam espaços para o erro e para as tentativas. Há muitas ferramentas que permitem que os estudantes possam refazer tarefas, discutir seus pontos de vista com outras pessoas de forma mais livre, situações que o estudante pode pesquisar à vontade sobre os assuntos estudados e tratar separadamente com seus tutores sobre pontos difíceis, sem toda a exposição típica da sala de aula. O estudante tem mais condições e tempo para lidar com limitações e necessidades de mais tempo para consolidar o andamento dos seus próprios processos cognitivos.

Será inexorável que as estruturas de ensino se modernizem de forma a se distanciarem de modelos que não servem mais para os contextos sociais e profissionais de nossos tempos. As mudanças do mundo irão provocar necessariamente as transformações nas estruturas educacionais. O ponto é crucial e está sobre nossos ombros. Cada escola encontrará seu próprio tempo para abraçar essas novas demandas. Os docentes também precisarão se desenvolver na direção destas novas necessidades. Uma certeza é fato: a escola está se transformando e não há como voltar ao passado.

Lúcia Rodrigues Alves

Lúcia Rodrigues Alves

Diretora das unidades Seven Guarulhos e Tatuapé