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Despencarmos no Fórum Econômico Mundial tem ligação com o inglês?

Se eu perguntar o que torna um país mais competitivo do que o outro, qual seria a resposta? Imediatamente me parece que o mais assertivo é apontar que há uma série de fatores combinados que determinam seu grau de competitividade. São alguns exemplos a política tributária, a infraestrutura, a burocracia, a regulamentação trabalhista e outros tantos que se aplicam à produtividade e que contribuem para um melhor ou pior nível de desempenho. Mas, desta vasta lista, eu gostaria de destacar um item em especial que é capaz de justificar grande parte de uma performance negativa: a mão de obra pouco qualificada.
Esse recorte é proposital porque nasce essencialmente de um problema educacional, que é bastante latente no nosso país. O ranking de competitividade do Fórum Econômico Mundial, avalia a competitividade global de 140 países. Amargamos uma queda considerável desde 2013. Saímos de 48º lugar em 2012 para a 81ª posição em 2016. Em 2017, tivemos uma discreta recuperação e figuramos em 80º e chegamos no 72º lugar em 2018. Nenhum motivo para comemorar, certo?
A situação reflete uma clara ineficiência do Estado de maneira inegável. E ela atinge culturalmente a nossa relação com uma disciplina que tem forte influência em todo o mecanismo da competitividade: o inglês.
Se no passado o inglês era uma exceção tida como um diferencial em profissionais do mundo todo, hoje seu domínio é regra para sobreviver no contexto de globalização e recebe status de importância similar à formação acadêmica. É por meio dele que os indivíduos se comunicam com seus pares em qualquer parte do planeta, assim como fornecedores, clientes e parceiros alocados em diversos países com operações internacionais.
A língua inglesa é também eleita oficial no universo acadêmico. As maiores universidades do mundo adotaram currículos lecionados totalmente em inglês, mesmo nos países em que esse não é o idioma-mãe, como é o caso da Espanha, por exemplo. E, para garantir que os alunos estrangeiros terão condições de absorver o conhecimento e se relacionar com os colegas, critérios de comprovação do seu domínio são solicitados ainda nos processos seletivos, como é o caso dos certificados internacionais de proficiência.
Ou seja, se quisermos ter profissionais bem capacitados e aptos a lidar com a dinâmica moderna da economia e a concorrer em situação de igualdade com cidadãos de qualquer outra nacionalidade em cargos de liderança, precisamos que a população como um todo (e não apenas nichos mais privilegiados) tenha acesso a uma educação eficiente pautada por parâmetros internacionais. Mas, isso ainda não é a nossa realidade.
Dados recentes da Associação Brasileira do Ensino Bilíngue (Abebi) mostram que entre 3% e 4% das escolas privadas no Brasil já entraram em um modelo de educação que privilegia o bilinguismo, o que representa um universo de aproximadamente 270 mil estudantes. Em contrapartida, de acordo com uma pesquisa conduzida pelo British Council, apenas 1% da população brasileira é fluente em inglês, enquanto outros 4% possuem algum nível de conhecimento da língua. Isso significa um universo de cerca de 10,5 milhões de habitantes. Mas e os outros 200 milhões? Eles estão distantes de toda essa realidade.
Para entender a dimensão do quanto isso impacta a competitividade do País e dos nossos futuros profissionais, o programa Ciência sem Fronteiras precisou, nas primeiras turmas, retornar ao Brasil bolsistas que estavam estudando em locais como Estados Unidos, Inglaterra e Canadá por conta da falta da fluência na língua para acompanhar as aulas e pesquisas.
Outra prova da nossa defasagem de proficiência é que o Brasil ocupa a 41ª posição do Índice de Proficiência da EF Education First, empresa de educação internacional que promove um estudo anual que se tornou referência. A nossa frente temos nações de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixo, como Filipinas, República Dominicana e Vietnã.
Em relação à América Latina, uma recente pesquisa chamada “Inglês no Trabalho”, conduzida em setembro de 2016 pela QS Intelligence Unit, que atua com coleta de dados do mercado empregador e de educação internacional e por Cambridge Assessment English, departamento da Universidade de Cambridge voltado para avaliação de proficiência em inglês, com empregadores de países não nativos no inglês, concluiu que, dentre os países pesquisados na região vizinha, empatamos com a Argentina na posição mais baixa. México, Chile, Colômbia, Venezuela e Peru, nessa ordem, são os melhores colocados, inclusive com índices maiores do que o mundial.
E onde está o problema, afinal? Essa resposta também está pulverizada em diferentes pontos de atenção, mas dois deles estão ligados às nossas raízes educacionais. A verdade é que o Brasil despertou mais tardiamente para o inglês no currículo educacional. Até a atualização da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a exigência do Ministério da Educação era lecionar uma língua estrangeira, sem especificar qual ou carga horária, por exemplo. A partir de 2019, pela primeira vez, seu ensino será compulsório tanto na esfera pública quanto na privada a partir do Ensino Fundamental 2. Então, aliado a isso, temos a falta de uma cultura de incentivo ao seu aprendizado desde a infância, período ideal de iniciação para que o aluno deixe futuramente o Ensino Médio com um excelente nível de proficiência no idioma.
Na educação privada, isso muda um pouco de figura. Entretanto, apesar da vasta oferta de idiomas logo nos primeiros anos da vida escolar pela maioria das escolas particulares e também de cursos em redes especializadas, observamos que, no final deste processo, ainda são poucos os brasileiros que conseguem atingir seus objetivos e se comunicar com desenvoltura, dentro do nível necessário.
Isso justifica em parte os motivos pelos quais o brasileiro continua sendo mal avaliado no mercado internacional, mesmo diante de amplas opções.
Enquanto gestores educacionais, somos todos responsáveis por desenvolver a competitividade dos nossos alunos, formando a capacidade deles de sobreviver, prosperar e melhorar o mundo em que vivemos. Dessa forma, desenvolvemos também a competitividade do Brasil no contexto global.
E o momento que a BNCC nos traz é propício para pensar: como planejaremos a mudança que viabilizará a transformação dessa realidade? Encarando de frente este tema, conseguiremos dar passos grandes.

Adriana L. Albertal

Adriana L. Albertal

Diretora Seven Educacional