Inglês e competitividade: como a falta de idiomas de comunicação
internacional impacta nossa posição no Fórum Econômico Mundial

Você já parou para analisar o que torna um país mais competitivo do que o outro? Há uma série de fatores que precisam ser combinados, como sua política tributária, sua regulamentação trabalhista, a infraestrutura disponível, os processos burocráticos e outros tantos que podem tornar um desempenho melhor ou pior. Entretanto, há um item em especial que é capaz de justificar grande parte de uma performance negativa, que é a mão de obra pouco qualificada.

Vejamos o caso do Brasil no ranking do Fórum Econômico Mundial que avalia a competitividade global de 137 países. Desde 2013 nossa nação vem despencando: passamos de 48º lugar em 2012 e chegamos a 81ª posição em 2016. E, então, no ano passado conseguimos recuperar um degrau e figuramos em 80º.

A corrupção é determinante, claro, para que essa situação se perpetue, mas a ineficiência do Estado também é questionada em igual medida. E intenso reflexo disso está na educação. Se no passado o inglês era uma exceção tida como um diferencial em profissionais do mundo todo, hoje seu domínio é regra para sobreviver à globalização e recebe status de importância similar a formação acadêmica. É por meio dele que os indivíduos se comunicam com seus pares em qualquer parte do planeta, assim como fornecedores, clientes e parceiros alocados em diversos países com operações internacionais.

E a língua inglesa é também eleita oficial no universo acadêmico. As maiores universidades do mundo adotaram currículos lecionados totalmente em inglês, mesmo nos países em que esse não é o idioma mãe, como é o caso da Espanha, por exemplo.

Ou seja, se quisermos termos profissionais bem capacitados e aptos a lidar com a dinâmica moderna da economia e a concorrer em situação de igualdade com cidadãos de qualquer outra nacionalidade em cargos de liderança, precisamos que a população como um todo (e não apenas nichos mais privilegiados) tenha acesso a uma educação eficiente pautada pelos parâmetros internacionais. Mas, isso ainda não é a nossa realidade.

Segundo dados do IBGE, em 2013, apenas 5,1% da população brasileira com 16 anos ou mais afirmava possuir algum conhecimento do idioma. Isso representa cerca de 7,1 milhões de pessoas. Entre essa parcela, apenas 16% (1,1 milhão) tinha o nível de conhecimento avançado na língua. Esse índice coincide com o fato de que diploma superior é privilégio de apenas 14,3% da população brasileira, dado do IBGE PNAD2014. Esta informação faz ainda mais sentido quando comparada com uma afirmação feita no estudo English in Brazil, do British Council, que diz que o aprendizado de inglês é considerado pela maioria dos brasileiros um luxo. A primeira preocupação é o ensino de primeiro grau, depois do segundo grau e, por fim, se houver condições, o curso de inglês.

E, então, para entender a dimensão do quanto isso impacta a competitividade do país e dos nossos futuros profissionais, o programa Ciência sem Fronteiras precisou, nas primeiras turmas, retornar ao país bolsistas que estavam estudando em locais como Estados Unidos, Inglaterra e Canadá por conta da falta da fluência na língua para acompanhar as aulas e pesquisas.

Oferta de ensino
O problema da qualificação profissional não se refere apenas às características do sistema de educação, mas também à falta de direcionamento para um ensino que prepara jovens para um mercado multifacetado, em que dominar idiomas, especialmente o inglês, é quesito básico. Prova da nossa defasagem de proficiência é que o Brasil ocupa a 41ª posição do Índice de Proficiência da EF Education First, empresa de educação internacional que promove um estudo anual que se tornou referência. A nossa frente temos nações de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) mais baixo, como Filipinas, República Dominicana e Vietnã.

Em relação à América Latina, uma recente pesquisa chamada “Inglês no Trabalho”, conduzida pela QS Intelligence Unit, que atua com coleta de dados do mercado empregador e de educação, e por Cambridge Assessment English, departamento da Universidade de Cambridge voltada para avaliação de proficiência em inglês, com empregadores de países não nativos no inglês concluiu que, dentre os países pesquisados na região vizinha, empatamos com a Argentina na posição mais baixa. México, Chile, Colômbia, Venezuela e Peru, nessa ordem, são os melhores colocados, inclusive com índices maiores do que o mundial.

Apesar da vasta oferta de idiomas logo nos primeiros anos da vida escolar pela maioria das escolas particulares e também de cursos em redes especializadas, observamos que, no final deste processo, ainda são poucos os brasileiros que conseguem atingir seus objetivos e se comunicar com desenvoltura, dentro do nível pretendido.

A verdade é que o Brasil despertou mais tardiamente para o inglês no currículo educacional: pela primeira vez a disciplina tornou-se obrigatória em ato recente do Ministério da Educação (MEC). A norma passa a valer em 2019 e reforça a necessidade de pensar a língua como estratégica frente ao mundo globalizado que vivemos e à competitividade que as crianças de hoje viverão no futuro.
Isso responde em partes o questionamento sobre por que o brasileiro continua sendo tão mal avaliado, mesmo diante de amplas opções. Sem parâmetros definidos, uma das explicações plausíveis é que no segmento educacional privado não se prioriza ainda o investimento em metodologias atualizadas e eficazes e em capacitação de professores. Embora os colégios ofereçam o ensino aos alunos, raramente o profissional responsável pela área está bem preparado. O problema se repete nas redes de escolas de idiomas, que, apesar de serem especializadas nesse conhecimento, crescem sem um planejamento de desenvolvimento sólido que possa garantir a presença de professores qualificados em todas as suas unidades.
Soma-se a esses fatores o fato de o país não ter uma cultura de incentivo ao aprendizado do inglês, sendo que o ideal seria aprender o idioma quando criança para já sair do Ensino Fundamental com um excelente nível de proficiência no idioma.

Diante de todo esse cenário e enquanto gestores educacionais que somos, eu pergunto: como planejaremos a mudança que viabilizará a mudança dessa realidade? Somos todos responsáveis por estimular os bons resultados que o Brasil precisa e se encararmos de frente os conseguiremos dar passos grandes e até então inédito em todos os aspectos da cadeia educacional.

* Matéria publicada na Revista Direcional Escolas em Março 2018

 Adriana L. Albertal

Adriana L. Albertal

Diretora da Seven Educacional