Metodologias ativas de aprendizagem: qual o
papel e a importância no processo de aprendizado?

O acesso e a democratização da internet provocaram uma transformação geral na maneira como nos relacionamos com tudo e com todos. Ela deixou a informação em um patamar muito mais próximo do indivíduo, que além de poder consumi-la em poucos cliques também ganhou voz e canais para compartilhar, discutir, debater e argumentar assuntos com muito mais propriedade e fontes de referência. Isso alterou a forma como interagimos com o mundo, com os aspectos políticos, com a economia, com as causas sociais e, claro, com o modo de aprender.

Depois de tantos anos fazendo tudo da mesma forma (e colhendo os mesmos resultados), parte das instituições despertou para a necessidade de fazer diferente e buscar formatos de aprendizado que gerem impactos positivos diferentes nos alunos, assim como nos professores também. Elas já entenderam que no século XXI o modelo que prioriza a memorização (seja de informações, de dados ou datas) literalmente faliu! Para saber por quantas e quais partes uma flor é composta, basta um enter nos sites de busca. A concorrência é gigante. O foco agora tem a mesma lógica dos sistemas de computação, como Business Intelligence e Big Data. Mais do que ter informação, é preciso saber como interpretá-la, como conectar as informações em função de um objetivo previamente estabelecido. A discussão da sala de aula passa a ser, por exemplo, como resolver o problema da convivência urbana com a flora nativa, como prevenir sua destruição por fatores predatórios ou ainda como utilizar elementos da flora brasileira em prol do seu crescimento econômico de maneira sustentável, trazendo desenvolvimento humano e protegendo, ao mesmo tempo, o ecossistema.
E é por meio das metodologias ativas de aprendizagem que esse desafio é trabalhado diariamente e que as organizações educacionais podem evoluir.
Se nos questionarmos como os estudantes aprendem, uma série de estudos pode ser usado como resposta. Mas, de forma geral, todos concordam que existe um processo lógico. Uma referência no tema é o psiquiatra americano William Glasser, que explica o aprendizado da seguinte forma: 10% a partir da leitura, 20% da escrita, 50% da observação e do exercício de escutar o outro, 70% ao discutir os temas, 80% praticando e 95% ensinando.

Percebe que isso vai diretamente no caminho oposto aos chamados “métodos tradicionais” de ensino? Neles, o docente é o protagonista ao ser a voz principal que conduz a matéria até o aluno e o trabalho acontece com base nos materiais didáticos, nos trabalhos e nas avaliações.

Nós somos, por natureza, seres curiosos. Ainda na infância damos início a uma série de questionamentos que se iniciam com “por que”. Entretanto, quando entramos na idade escolar passamos a ser desencorajados, mesmo que inconscientemente, a estimular a curiosidade (e, consequentemente, o faro para a inovação, para fazer algo de forma diferente) ao não ser colocados no centro do processo. Agora, retornemos à teoria de Glasser. Você vê a ligação entre tudo? Os alunos aprendem a partir de atividades práticas, de mão na massa, de estímulo. Aspectos justamente trabalhados na metodologia ativa de aprendizado.

Nela, o aluno é o personagem principal da história e o grande responsável pelo processo de aprendizado. Ele possui mais autonomia para escrever sua própria trajetória ao desenvolver a capacidade de absorção e de participação no conteúdo.

Mas, e então, como adotar isso na prática? Há uma série de formatos que podem ser combinados e inseridos no dia a dia da sala de aula, como:
• Estudo de caso, em que a partir de relatos de situações reais ou que podem ser reais no universo em que os alunos vivem, eles precisam entender a problemática, explorar os aspectos relacionados e direcionar sua própria aprendizagem para buscar soluções ou proposições em torno do tema;
• Aprendizagem baseada em projetos ou problemas, em que a partir de um contexto inicial comum a todos, cada estudante precisa explorar o contexto e possíveis soluções que serão avaliadas e terão um feedback do docente. O conhecimento acontece de forma colaborativa;
• Trabalho em pares ou times, para que o compartilhamento de ideias dê origem a discussões, noção de argumentação e divergências que contribuirão na construção do pensamento crítico;
• Sala de aula invertida, cuja proposta é que cada indivíduo acesse conteúdos virtuais previamente para que o tempo em classe seja otimizado em torno das dúvidas, das reflexões e da participação de todos em torno da discussão da temática de forma aplicada a situações cotidianas.

Essa inversão de lógica tem um impacto claro em toda a cadeia acadêmica. Os alunos adquirem maior autonomia e segurança, passam a enxergar o aprendizado como algo natural, melhoram a aptidão para resolver problemas e também para refletir, criticar e analisar as ocasiões em que tiverem inseridos, assim como tornam-se profissionais mais qualificados e valorizados em um mundo que pede por indivíduos que saibam interagir positivamente com outras pessoas, ouvir e lidar com conflitos e frustração, saber se relacionar com autoridade, enfrentar a competição, se comunicar eficazmente em língua materna e em língua estrangeira, conviver com a mudança e ter humildade para sempre aprender o que não sabe.

Já as instituições ganham em termos de imagem e reconhecimento no mercado ao melhorar o índice de satisfação dos alunos e dos pais, de percepção da contribuição ativa para a sua formação, além do aumento da atração, captação e retenção de alunos.

Ou seja, a aplicação das metodologias ativas de aprendizagem precisam, com urgência, ser encaradas como um agente de mudança da educação brasileira, assim como um fator de diferencial competitivo, ainda mais diante do cenário em que vivemos, com a chegada de escolas internacionais que usam justamente essa estrutura como atrativo aos pais.

E, para que ela seja eficiente, é preciso investir primeiro no desenvolvimento dos docentes, que precisam ter suas práticas e ferramentas aprimoradas para aplicar todo o potencial do formato em prática.

*Matéria publicada na Revista Escola Particular em Junho 2018

Adriana L. Albertal

Adriana L. Albertal

Diretora da Seven Educacional