Bilinguismo: Benefícios vão além do domínio de um segundo idioma

Estima-se que 66% das crianças no mundo sejam criadas em ambientes bilíngues, o que é um grande diferencial para o desenvolvimento cognitivo e mental, além de abrir um universo de possibilidades sociais.

Estamos cercados pela linguagem em todos os momentos de nossa vida. Ela é a base de nossa comunicação, é a forma que utilizamos para expressar nossos pensamentos e sentimentos, para nos conectarmos com outros e para compreender o mundo ao nosso redor. Para muitos, um rico ambiente linguístico envolve não apenas um idioma, mas dois ou mais. Afinal, vivemos de forma cada vez mais global e isso envolve cultura, trabalho e relacionamentos. Há países considerados monolíngues, como os Estados Unidos da América, em que um quinto da população maior que cinco anos fala um idioma diferente do inglês em sua vida cotidiana. Segundo a agência de notícias Associated Press, aproximadamente 66% das crianças no mundo são criadas em ambientes bilíngues, algo mundialmente reconhecido como positivo.
O avanço tecnológico das últimas décadas facilitou a pesquisa sobre como o bilinguismo interage com os sistemas cognitivos e neurológicos e como os altera. De acordo com o estudo desenvolvido por Viorica Marian, pesquisadora Ph.D, diretora do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade de Northwestern, e por Anthony Shook, pesquisador Ph.D pela Universidade de Northwestern, ser bilíngue pode trazer benefícios tangíveis. O desenvolvimento do processamento cognitivo e sensorial pode contribuir para um processamento de informações do ambiente mais eficiente. A maior atenção a detalhes é um exemplo e explica porque adultos bilíngues aprendem melhor um terceiro idioma do que os monolíngues aprendem o 2º idioma. Ou seja, pessoas bilíngues acessam novo vocabulário com mais facilidade do que pessoas monolíngues, que no geral não desenvolveram tanto a habilidade de selecionar dados entre informações concorrentes.
Segundo as pesquisas, os benefícios do bilinguismo começam cedo. Crianças expostas a ambientes bilíngues a partir de sete meses demonstram prestar mais atenção ao seu entorno e ter maior facilidade para lidar com conflitos. Quanto aos adultos, o bilinguismo ajuda a manter a “reserva cognitiva”, diminuindo seu natural processo declínio. A reserva cognitiva se refere ao uso eficiente das redes neurais para melhorar a função cerebral no processo de envelhecimento, mantendo os mecanismos cognitivos agudos e despertos e fazendo uso de redes neurais alternativas para compensar a eventual redução de eficiência de alguns mecanismos. Adultos bilíngues idosos apresentam com frequência mais memória e maior controle cognitivo, o que proporciona consideráveis benefícios para a saúde e bem-estar social.
O enriquecimento do controle cognitivo é apenas um dos seus benefícios do bilinguismo. Mesmo com certas limitações linguísticas, que podem ser observadas em pessoas bilíngues (como uma maior dificuldade de lembrar nomes),o bilinguismo vem sendo associado a melhor consciência metalinguística, que é a habilidade de reconhecer a língua como um sistema que pode ser explorado e manipulado. Relaciona-se ainda com uma melhor capacidade de memória, habilidades visuais, habilidades espaciais e criatividade. Além destas vantagens, há também a facilidade de acessar a produção cultural de um país através do seu idioma nativo e, especialmente, o universo de possibilidades que se abre em relacionamentos, que passam a ter amplitude multiplicada. No caso do inglês, o idioma traz a possibilidade de ter acesso à produção cultural e acadêmica do planeta, pois se trata de uma linguagem global.
Estudar o bilinguismo é fundamental para aprofundar o conhecimento dos benefícios cognitivos, neurais e sociais atrelados a ele. As evidências tendem a ser cada vez mais consistentes, na medida em que milhares de pessoas mundo afora já se beneficiam do fato de dominarem dois idiomas. O que se espera, portanto, é que o acesso a este conhecimento seja cada vez mais amplo, beneficiando o maior número possível de pessoas.

* Matéria publicada na edição de Junho/2015 da Revista Escola Particular

Adriana L. Albertal

Adriana L. Albertal

Diretora da Seven Educacional